Há noites em que um teatro apresenta simplesmente uma nova peça. E há noites em que um teatro reencontra a sua própria história.
O Teatro Nacional D. Maria II reabre esta sexta-feira no Rossio, depois de três anos encerrado para uma profunda intervenção de renovação que representou um investimento próximo dos 15 milhões de euros.
Para assinalar o regresso, foi escolhida Macbeth, de William Shakespeare.
A escolha tem um significado particular.
Foi precisamente durante uma produção de Macbeth, em 2 de dezembro de 1964, que um incêndio destruiu grande parte do Teatro Nacional.
Sessenta e dois anos depois, a chamada “peça maldita” volta ao mesmo palco.
Três anos de portas fechadas
O D. Maria II encerrou em 2023 para uma intervenção profunda.
Muitas das alterações realizadas não serão imediatamente visíveis para o público, mas destinam-se a modernizar as condições técnicas, melhorar o funcionamento do edifício e prepará-lo para as próximas décadas.
Durante o encerramento, o Teatro Nacional não deixou, contudo, de produzir espetáculos.
A programação percorreu diferentes regiões portuguesas através do projeto Odisseia Nacional, levando produções para fora de Lisboa e reforçando uma estratégia de descentralização que a instituição pretende agora manter.
O incêndio que marcou uma geração
O edifício que domina o Rossio desde o século XIX carrega uma história atribulada.
Na noite de 2 de dezembro de 1964, um incêndio de grandes proporções destruiu praticamente todo o interior do teatro.
Em palco estava Macbeth.
O desastre deixou Lisboa sem um dos seus principais espaços culturais e obrigou a uma longa reconstrução.
O teatro só voltaria a abrir em 1978.
Agora, mais de seis décadas depois daquele incêndio, Shakespeare regressa simbolicamente ao local onde a representação foi interrompida pelo fogo.
O Rossio volta a ter o seu teatro
O D. Maria II é muito mais do que uma sala de espetáculos.
A sua fachada neoclássica é uma das imagens mais reconhecíveis da Praça do Rossio e faz parte da memória urbana de Lisboa.
Para milhares de portugueses que vivem no estrangeiro e regressam periodicamente à capital, o edifício é também um daqueles pontos que permitem reconhecer imediatamente a cidade.
A reabertura devolve, por isso, ao centro de Lisboa não apenas um palco, mas uma instituição nacional.
Um fim de semana para redescobrir o edifício
A reabertura será acompanhada por atividades destinadas a aproximar novamente o público do teatro renovado.
Estão previstas visitas ao edifício e iniciativas que permitem conhecer espaços normalmente inacessíveis aos espectadores.
A nova temporada procura também prolongar a permanência dos espetáculos em palco e aumentar a presença de mulheres na criação e encenação teatral.
É uma nova etapa para uma instituição que atravessou monarquia, República, ditadura, revolução, incêndio e reconstruções.
Esta noite, quando as luzes se apagarem e Macbeth começar, o público assistirá a muito mais do que Shakespeare.