A venda da chamada pílula do dia seguinte aumentou 8,8% em Portugal durante o primeiro semestre, ao mesmo tempo que se registou uma diminuição na venda de outros métodos contracetivos.
Os números revelam uma evolução que merece atenção para além da simples estatística. A contraceção de emergência foi concebida para responder a situações excecionais uma relação sexual desprotegida, uma falha do método contracetivo ou outra circunstância que possa resultar numa gravidez não planeada.
O aumento da sua utilização, simultaneamente com a redução de outros contracetivos, levanta questões sobre os hábitos de prevenção, acesso à contraceção e informação sexual em Portugal.
A pílula do dia seguinte não é um método contracetivo regular
A contraceção de emergência é uma ferramenta importante de saúde sexual.
Pode evitar uma gravidez após uma relação desprotegida ou quando o método utilizado falhou.
Mas não foi concebida para substituir métodos regulares de contraceção.
A sua utilização também não protege contra infeções sexualmente transmissíveis, uma distinção particularmente importante entre os jovens.
Por isso, um aumento das vendas não deve ser interpretado automaticamente como algo positivo ou negativo.
É necessário perceber o que está por detrás dos números.
Porque está a aumentar?
Existem várias explicações possíveis.
Uma maior informação sobre a existência da contraceção de emergência pode levar mais mulheres a recorrer corretamente a esta solução quando necessário.
Uma maior facilidade de acesso pode também reduzir o número de gravidezes não planeadas.
Mas a evolução pode igualmente refletir uma menor utilização de métodos contracetivos regulares ou mudanças nos comportamentos sexuais.
Os dados disponíveis, isoladamente, não permitem concluir qual destes fatores explica o crescimento.
Essa distinção é essencial.
Aumentar o acesso à contraceção de emergência é diferente de aumentar a dependência da contraceção de emergência.
Outros contracetivos estão a recuar
É precisamente a evolução simultânea das restantes formas de contraceção que torna os números mais interessantes.
Se a utilização de determinados métodos regulares diminui enquanto aumenta a procura pela solução de emergência, torna-se importante perceber se existem dificuldades de acesso, alterações de hábitos ou simplesmente uma mudança nas preferências dos consumidores.
O preço, a disponibilidade, o acompanhamento médico e a informação podem influenciar estas decisões.
Também será necessário observar a evolução durante um período mais longo antes de concluir que estamos perante uma mudança estrutural.
Se o fenómeno continuar nos próximos semestres, poderá justificar uma análise mais aprofundada por parte das autoridades de saúde.
Informação continua a ser essencial
A educação sexual continua a desempenhar um papel fundamental.
Conhecer os diferentes métodos contracetivos, compreender os riscos associados às relações desprotegidas e saber quando recorrer à contraceção de emergência permite tomar decisões mais informadas.
Esta informação é particularmente importante para adolescentes e jovens adultos, mas não exclusivamente.
A saúde sexual acompanha todas as fases da vida.
O acesso fácil a informação credível também ajuda a combater mitos que continuam a circular sobre contraceção, fertilidade e infeções sexualmente transmissíveis.
Um número que merece ser acompanhado
Uma subida de 8,8% em seis meses é suficientemente significativa para justificar atenção.
Mas seria errado retirar conclusões precipitadas.
Pode representar maior acesso e melhor utilização de um recurso de emergência.
Pode refletir mudanças nos métodos contracetivos escolhidos.
Ou pode revelar comportamentos que justificam maior investimento na prevenção.
Para saber qual destas hipóteses está mais próxima da realidade, serão necessários mais dados.
Por enquanto, existe uma certeza: cada vez mais contraceção de emergência está a ser vendida em Portugal, enquanto outros métodos perdem terreno.