8 de novembro de 2026
Correio da Tarde

Portugal quer calçar o mundo: 100 milhões para desafiar a hegemonia asiática

Portugal está a terminar o maior ciclo de investimento de sempre na indústria nacional do calçado. São 100 milhões de euros aplicados em sustentabilidade, digitalização, inteligência artificial, robotização e novos materiais , numa estratégia que pretende reforçar o país como alternativa europeia à produção asiática.

Portugal quer calçar o mundo: 100 milhões para desafiar a hegemonia asiática

Portugal está a terminar o maior ciclo de investimento de sempre na indústria nacional do calçado. São 100 milhões de euros aplicados em sustentabilidade, digitalização, inteligência artificial, robotização e novos materiais, numa estratégia que pretende reforçar o país como alternativa europeia à produção asiática.

O desafio é enorme. A Ásia concentra atualmente quase 89% da produção mundial de calçado, enquanto toda a Europa representa pouco mais de 2%. Ainda assim, Portugal mantém uma base industrial relevante e procura competir não pelo preço mais baixo, mas pela qualidade, inovação, flexibilidade e proximidade dos grandes mercados europeus.

74 milhões de pares produzidos em Portugal

Em 2025, a indústria portuguesa produziu cerca de 74 milhões de pares de sapatos, colocando Portugal na 18.ª posição entre os maiores produtores mundiais.

Mais importante do que a quantidade é a capacidade exportadora.

O setor apresenta um excedente comercial próximo dos mil milhões de dólares, num mercado internacional em que Portugal dificilmente poderá competir com os custos de produção de gigantes asiáticos como China, Vietname ou Indonésia.

A estratégia portuguesa é, por isso, diferente: produzir menos, mas produzir melhor e com maior valor acrescentado.

Inteligência artificial chega às fábricas

Os 100 milhões de euros foram mobilizados sobretudo através dos projetos BioShoes4All e FAIST - Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica.

O investimento permitiu introduzir automação, robotização, inteligência artificial e novas tecnologias nos processos industriais.

Mas uma das transformações mais interessantes está nos materiais.

O BioShoes4All reuniu 69 entidades portuguesas, entre empresas, universidades e centros de investigação, e permitiu desenvolver materiais a partir de recursos tão diferentes como cascas de pinheiro, folhas de oliveira, borras de café, casca de castanha ou caroço de azeitona.

Foram desenvolvidos 46 novos produtos de calçado e marroquinaria, 45 dos quais apresentam menor pegada ecológica.

É uma forma muito concreta de transformar aquilo que durante décadas foi uma indústria tradicional portuguesa numa indústria tecnológica.

Portugal leva 71 empresas a Milão

Esta semana, 71 empresas portuguesas marcaram presença em Milão nas grandes feiras internacionais MICAM, Lineapelle e Simac.

É precisamente nestes mercados que Portugal procura afirmar uma imagem diferente do produto asiático de baixo custo.

Design, séries mais pequenas, rapidez de produção, sustentabilidade e proximidade geográfica são algumas das vantagens utilizadas pela indústria portuguesa para conquistar marcas e compradores internacionais.

Portugal já ocupa, por exemplo, a quinta posição mundial entre os maiores exportadores de calçado impermeável.

Uma indústria que também mudou de produto

O tradicional sapato português em pele continua importante, mas o setor está a diversificar-se.

Há três anos, o calçado de couro representava 69% das exportações. Atualmente representa cerca de 58%.

Ao mesmo tempo, os produtos em borracha e plástico passaram de 13% para 21% e os produtos têxteis de 8% para 12%.

A mudança acompanha novos hábitos dos consumidores e permite às empresas portuguesas entrar em segmentos onde anteriormente tinham uma presença mais reduzida.

Um Portugal industrial que nem sempre se vê

Para muitos estrangeiros, e até para muitos portugueses que vivem fora do país, Portugal continua associado sobretudo ao turismo, vinho, cortiça, futebol e gastronomia.

Mas existe também um Portugal industrial.

No Norte do país, milhares de pessoas trabalham numa fileira que reúne fábricas, designers, empresas tecnológicas, universidades, fabricantes de componentes e centros de investigação.

É precisamente essa capacidade produtiva que Portugal procura agora preservar.

Porque competir com a Ásia exclusivamente pelo preço seria praticamente impossível.

A aposta portuguesa é outra: tecnologia, sustentabilidade, qualidade e capacidade de produzir perto dos mercados europeus.